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Tricotando | Conto Apocalíptico

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Aviso: um pouquinho de zumbis e um pouquinho de dramas da velhice.

***


Eu não tenho problema nenhum em ficar aqui sabe? Só é meio solitário. A gente começa a falar sozinha e não para mais. Pra espantar a loucura, né? É... A loucura. É o que eu acho. 

É bom escrever também. Enquanto eu posso. Meus dedos ficam duros por causa do frio e o sangue vai embora deles, mas eu quero tentar me ocupar. 
Então eu vou deixar aqui escrito o que aconteceu com o mundo. Ou melhor, o que eu assisti acontecer com o mundo daqui da minha televisão e da janela do prédio. O caderno é de receitas, mas o importante é contar a história.

As notícias iniciais eram de que as pessoas estavam ficando doentes muito rápido por causa de um vírus que comia partes do cérebro. Era assim que o jornalista falava na TV, no começo. Mas logo anunciaram quarentena e mandaram todo mundo ficar em casa. A doença transmitia pela saliva. Eu só continuei como eu estava, a cadeira de rodas não ia pra muito longe do prédio, eu fico cansada rápido de empurrar ela. 

Eu não uso a cadeira muito em casa, só na rua, eu consigo dar uns passinhos sozinha aqui dentro. É só cansaço. Só isso. 'Velheira'.

Mas eu sempre tinha comida, mesmo na quarentena. Uma moça pegava as latas que conseguiu comprar com umas vans que andavam vendendo pela cidade na quarentena e dividia comigo. Eu ficava conversando com o retrato da Adelaide pra não incomodar ela com a minha faladeira, mas era bom ver gente. Uns meses depois ela sumiu. 

Quando as pessoas doentes começaram a morder outras pessoas fizeram uma barricada no prédio e me avisaram que iam se mudar. Eu não quis ir, nem o Fuji, o moço que morava no andar de baixo. Ele me ajudou por um tempo com comida e conversa, mas um mês depois disse que ia procurar ajuda e mais gente. Acho que ficou solitário pra ele também, cansou de esperar a irmã chegar. 
Ele fez uma barricada melhor, e deixou todas comidas enlatadas e não perecíveis comigo. Tinha arroz e legumes pra eu fazer, era bom. Mas não tinha mais companhia. E a TV saiu do ar. 

Eu só ouvi gente uns meses depois, gritando do prédio do outro lado da rua, um mini shopping. Era o Fuji, e tinha gente com ele. Ele aparecia pra me gritar todo dia.

*** 

Quando o frio chegou o Fuji pediu pra eu fazer umas blusas de frio pra eles. Eu até acho que tinha roupa de frio nas lojas do shopping. Mas foi bom ocupar a cabeça. Eu fiz várias, e fiz uma pra mim. Fiz também um cachecol, mas foi só pro Fuji. 

Quando eu contei que tava acabando a comida ele deu um jeito de montar uma cestinha com um daqueles aviãozinho estranho que tem um monte de hélice, e mandava umas comidas em lata. 

Nessa altura já não tinha muitos infectados na rua. Mas não era seguro sair de casa. Pelo menos foi isso que o pessoal do mini shopping falou numa cartinha. E assim, mais meses se passaram. 

Quando os meses de inverno acabaram, eles mandaram o drone com a cesta cheia de comida, duas vezes. E na segunda vez tinha uma carta, explicando que eles iam procurar por um acampamento de sobreviventes. Explicaram que as ruas já estavam bem vazias e tinham um carro. Me perguntaram se eu queria ir, mas eu assinei que não. Que não ia deixar as coisas da Adelaide pra trás. Eu não conseguia sair da casa e não levar tudo. Então achava melhor nem ir. A Adelaide tinha paciência de ir devagar comigo, mas muita gente não tem.

Quando a gente fica velha fica meio assim, colecionando memória boba. 

Mas não consegui. Falei pra eles irem. 

***

Eles se foram e outro inverno chegou. Eu fiz mais blusas pra me ocupar, mas não tinha mais como mandar pra ninguém. A casa, no entanto, ficou quentinha. Tinha tricô pra todo lado.

Mas o silêncio era meio triste. Eu até comecei a falar mais vezes com o retrato da Adelaide. A gente era tão diferente, cabelo, pele, gostos. Mas a gente dava muito certo, e ela era linda. Eu tenho saudade da Adelaide. Tive saudade do Fuji e da vizinha que eu não lembro o nome. 

Mas o tempo passava, as latas de comida iam acabando e eu ia parecendo mais doida falando sozinha. Li tudo na casa dez vezes, pra não ficar doida. Nem esquecer nada. 

***

Essa semana o telefone tocou. Eu fiquei com medo de atender. Não sei porque. Mas também, fazia quase um ano que nada assim funcionava. 

Mas tocou de novo ontem. E eu atendi. 

Um moço de voz forte falou que vinha um carro daqui três dias me buscar, antes do meio dia. Eu perguntei do Fuji e dos doentes, ele disse que estava tudo bem, que só precisavam buscar sobreviventes e ir pra uma base, pro vírus terminar de morrer na cidade. 

Amanhã é o terceiro dia, e a última lata de atum acaba. A Adelaide adorava atum. Parece até que ela tava me ajudando até aqui, mas é hora de ir. Solidão dói, então a Adelaide vai entender. Talvez eu até ajudo o Fuji a achar a irmã dele. Andando bem devagarinho.

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Nina Bichara

Image by congerdesign from Pixabay

1 Comment Add a Comment?

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Fernando Serra

Posted on June 24, 2019, 4:50 p.m.

Oi!
Recém voltei pras redes e acabo de encontrar esse ótimo conto!


Que incrível a perspectiva. Seu estilo ta cada vez mais incrível e você sempre surpreendendo a gente com cenários que ninguém pensa. Uma senhorinha num apocalipse! Que demais.


Otimo conto!

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